Resenha: O Paradoxo do Comediante (Diderot)

Atualizado: Mar 9

O livro trata de uma discussão entre duas pessoas sobre qual seria o modo ideal de ser

um comediante, um ator.

(Imagem Ilustrativa do livro)

Cada um traz uma visão diferente de como fazer arte. Por dentro todo o texto, basicamente, eles focam em uma única questão: a sensibilidade, ou a falta dela e como isso reflete na percepção do público sobre o que está sendo mostrado. Um dos pontos levantados pelo PRIMEIRO é bem interessante. Ele diz que o comediante precisa ser frio, insensível, para que não imite uma ação ou sentimento e sim que o viva. Que se fosse alguém sensível, a entrega seria imensa na primeira apresentação, mas o entusiasmo iria se perdendo com o tempo pois o comediante nunca deixou de ser ele mesmo no palco, ele não se entregou ao personagem e a história de quem está representando.

Em um momento do texto ele menciona que quando duas pessoas estão representando juntas e uma delas está imitando um comportamento, acaba ficando exagerado e chama mais atenção do que o que está realmente vivendo o que faz e o público acaba entendendo que o ator que vive é ruim e o que imita é bom. “Cabe ao sangue-frio temperar o delírio do entusiasmo.” O comediante sensível imita o sentimento. Ele sabe exatamente a hora que vai chorar,

a hora que vai gritar e o impacto que o público recebe é físico e não sentimental, ao contrário do insensível que não imita, ele representa um sentimento ou uma ação e dessa forma faz com o que o público receba a emoção de uma única vez ao invés da construção lenta da imitação.

“São as entranhas que perturbam desmesuradamente a cabeça do homem sensível; é a cabeça do comediante que leva às vezes passageira perturbação às suas entranhas; ele chora como um padre incrédulo que prega a Paixão; como um sedutor aos joelhos de uma mulher que ele não ama, mas que deseja enganar; como um mendigo na rua ou à porta de uma igreja, que vos injuria quando desespera de vos comover; ou como uma cortesã que nada sente, mas que desmaia em vossos braços.”


(Denis Diderot)

A arte da representação requer experiência, é preciso treino e estudo para que a cabeça e a alma não se confundam com a imitação. Me lembra o exercício de visualização, ontem tínhamos que enxergar um gato na sala de aula. Uma coisa era imitar alguém vendo um gato e outra era realmente ver e representar a ação real desse acontecimento.

Uma das comparações que mais me fizeram entender o posicionamento do PRIMEIRO é a história de quando estava apaixonado por uma menina e não conseguia falar com ela, trocava as palavras, tremia, tropeçava. Enquanto um outro rapaz já não tomado pela sensibilidade conseguia falar firmemente, elogiar, abraçar enquanto ele observava.

A partir dessa observação, ele consegue filtrar o que é necessário incluir ou subtrair de suas emoções e a partir de então, passa a representá-las dentro de suas vivências.

E dentro de tanto representar, acaba-se que sua natureza sensível seja cada vez mais

ofuscada, transformando-o em uma grande representação de tudo. “É que ser sensível é uma coisa, e sentir é outra. A primeira é uma questão de alma e a outra, uma questão de julgamento. É que sentimos com intensidade o que não saberíamos expressar; que expressamos só, em sociedade, no pé da lareira, lendo, representando, para alguns ouvintes, e que não expressamos nada que valha no teatro; é que no teatro, com o que se chama sensibilidade, alma, entranhas, expressamos bem uma ou duas tiradas e falhamos no resto “

Ele acredita que o que impressiona o público não é quando alguém está realmente

bravo, digamos assim, mas quando alguém consegue representar bem o sentimento e logo

depois passar para outro totalmente oposto.

Eu acredito que ambas as formas de interpretação são válidas desde que a emoção

esteja sendo transmitida de forma verdadeira. Mesmo quem finge, sente. Alguns mais e outros menos mas todo mundo sente, a forma que lidamos com isso é o que mostra como nosso caminho é determinado. Seja sentindo sempre, seja representando o que já sentiu outrora.

“Aquilo que a própria paixão não conseguiu fazer, a paixão bem imitada o executa.”





Gabriela Bonavita Instagram: @gabibonavits E-mail: gabibsarti@gmail.com (11) 97623-0494





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